Roteiro de Viagem pelo Séc. XII

Os diários de viagem de Benjamin de Tudela são das primeiras obras culturais da Idade Média e compõem, por fim, um panorama geográfico e histórico sobre como viviam os povos asiáticos, africanos e europeus no século XII. A empreitada de rabi Benjamin,  viajante e escritor judeu nascido no Reino de Navarra, antecede a de Marco Polo por cem anos e pretende, não só um diário de viagem detalhado pela Ásia, África e Europa, mas também a descrição geográfica, religiosa, social, política e comercial das cidades por onde passou. O fim da Segunda Cruzada e suas conseqüências marcam um período de enorme importância na história do Ocidente. Se por um lado o século XII tem como marcas a reconquista da Península Ibérica e ascensão de Saladino, por outro a importância cultural favorecida pelo Itinerário de Benjamin de Tudela tampouco passa despercebida.

Marcado pela objetividade e detalhe das descrições e reproduções de sociedades até então pouco conhecidas, O Itinerário de Benjamin de Tudela, traduzido e organizado por J. Guinsburg, é uma elucidação sobre os estágios do desenvolvimento das nações que culminariam, por fim, nos mundos civilizados.


Itinerario de BTudela


Entre as crônicas dos viajantes que desenharam no mundo medieval o mapa mundi das terras conhecidas e “ignotas” que suas andanças lhes permitiram palmilhar, o Itinerário de Benjamin de Tudela tem um lugar marcante na literatura hebraica e no contexto judaico ao qual pertence, assim como em diferentes trabalhos científicos sobre a história e a geografia do Medievo. O seu interesse, que nutriu a imaginação de gerações de leitores judeus e deitou frutos inclusive com uma obra clássica nas letras ídiches, Aventuras de Benjamin III*, de Mêndele Mokher Sforim, editada em 1878, transpôs desde logo os muros dos guetos, difundindo- se em sucessivas edições hebraicas e traduções latinas, percurso que o constituiu em objeto de estudo, quer dos principais expoentes da Ciência do Judaísmo, como Leopold Zunz (1794-1886), Moritz Steinschneider (1816-1907) e A. Asher (1800-1853), quer da pesquisa acadêmica sobre o universo medieval encetada desde os humanistas do Renascimento. Uma das razões, sem dúvida, é que Benjamin, embora um homem vinculado às suas raízes religiosas e etnoculturais, descreve com muito realismo tudo o que viu e visitou e, não menos, tudo o que lhe relataram sobre países e povos com os quais não teve contato pessoal. O motivo talvez seja porque o seu olhar é marcado por uma objetividade que se traduz em dados numéricos para a demografia judaica da época e em registro de ocupações no plano da economia, além de outras informações que são atribuídas à sua percepção e avaliação, sobretudo de mercador. Tais fatos e os quadros descritos por nosso itinerante ainda se propõem com vivacidade a um leitor de hoje, pelo menos foi o que aconteceu ao tradutor e, por isso, ele  empreendeu a versão que ora apresenta ao público de língua portuguesa.

[J. Guinsburg]

Matrakçı_Nasuh_Hamedan_Map
Mapa do século XVI da cidade de Hamadan, desenhado por Matrakçı Nasuh.

Dali são dois dias até Bagdá, a grande cidade e a residência real do califa emir Al Muminim Al Abasi da família de Maomé. Ele é o cabeça da religião maometana e todos os reis do Islã lhe obedecem; ele ocupa uma posição similar ao do papa sobre os cristãos. Ele tem um palácio em Bagdá de três milhas de extensão, em que há um grande parque com todas as variedades de árvores, frutíferas e de outras mais, e todas as espécies de animais. O conjunto é rodeado de uma muralha, e no parque há um lago cujas águas são alimentadas pelo rio Hidekel. Sempre que o rei deseja entregar-se à recreação e alegrar-se e festejar, seus servidores apanham todas as espécies de pássaros, caças e peixes, e ele  vai ao seu palácio com seus conselheiros e príncipes. Lá, o grande rei Al Abasi, o califa (Hafiz), celebra sua corte, e ele é bondoso com Israel e muitos que pertencem ao povo de Israel são seus acompanhantes; ele conhece todas as línguas e é bem versado na lei de Israel. Ele lê e escreve na língua sagrada (hebraico). Ele não partilha de nenhuma coisa a não ser que a haja ganhado com o trabalho de suas próprias mãos. Ele faz colchas às quais apõem seu selo; seus cortesãos vendem-nas no mercado, e os grandes do país as compram, e dos produtos dessa venda provêm seu sustento. Ele é confiante e confiável, sua fala é de paz para todos os homens. Os homens do Islã o veem apenas uma vez por ano. Os peregrinos que vêm de terras distantes, para ir a Meca, que fica na terra de El- Yemen, anseiam ver a sua face e reúnem-se diante do palácio exclamando: “Nosso Senhor, luz do Islã e glória de nossa Lei, mostra-nos a fulgência de teu semblante” – mas ele não dá atenção às suas palavras. Então os príncipes que são seus ministros dizem-lhe: “Nosso Senhor, difunde tua paz sobre os homens que vieram de terras distantes, que almejam abrigar-se sob a sombra de tua benevolência”. Em consequência disso, ele se ergue e deixa cair da janela a fímbria de sua túnica e os peregrinos vêm e beijam- na, e um príncipe lhes diz: “Ide em paz, pois nosso mestre, o senhor do Islã, concedeu paz a todos vós”. Ele é considerado por eles Maomé, e eles voltam para suas casas rejubilando-se com a saudação que o príncipe se dignou a outorgar-lhes e contentes por terem beijado a sua túnica. al-hariri_maqamat-145789C29925AFBA6C6

Cada um de seus irmãos e membros de sua família tem uma morada em seu palácio, mas eles estão todos agrilhoados em cadeias de ferro e guardas permanecem postados em torno de suas casas, de modo que não possam se levantar contra o grande califa. Pois aconteceu uma vez que seus irmãos se ergueram contra ele e proclamaram um deles como califa; então foi decretado que todos os membros de sua família devem ser acorrentados, de modo que não possam levantar-se contra o califa reinante. Cada um deles reside em seu palácio em grande esplendor, e eles são donos de aldeias e cidades, e seus intendentes lhes trazem tributos daí provenientes, e eles comem e
bebem e regozijam-se todos os dias de suas vidas. Dentro dos domínios do palácio do califa há grandes edifícios de mármore e colunas de prata e ouro, e cinzeladuras em pedras raras estão fixadas nas paredes. No palácio do califa há grandes riquezas e torres cheias de ouro, vestes de seda, e todas as pedras preciosas. Ele não sai de seu palácio, salvo uma vez por ano na festa que os maometanos chamam El-idbed Ramazan, e eles vêm de terras distantes nesse dia para vê-lo. Ele aparece montado em uma mula e envergando as vestes reais de ouro e prata e finos linhos; sobre a cabeça traz um turbante adornado de pedras preciosas de valor inestimável, e sobre o turbante, um xale preto como um signo de sua modéstia, implicando que toda essa glória será coberta de trevas no dia da morte.

*Título da tradução brasileira, realizada por Paula Beiguelman e editada em 1944, da novela Massoes Beniúmen Haschlischi, de Scholem I. Abramovitch (1836-1917), cognominado Mêndele Mokher Sforim (Mêndele, o Vendedor de Livros).

 


Leia também!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s