Semana da Poesia: Lírica Grega

“Meu interesse por literatura grega começou a partir do contato com a poesia de Safo. Foi despertado há quarenta anos, quando eu contava dezessete, numa aula memorável de Francisco Achcar. Lembro-me perfeitamente de sua oralização de dois fragmentos da poeta  de Lesbos, traduzidos por Haroldo de Campos e incluídos no apêndice do Abc da Literatura de Ezra Pound. Ainda hoje, ao relê-los, considero-os primorosos por captarem o que há de mais particular em Safo: o deleite do estado contemplativo, a precisão verbal na configuração do instante, que lembra, de algum modo, um haicai, a atmosfera dramática do ritual, a sutileza da dicção.

Desde Homero (século VIII a.C.) até o apogeu da sofística e da filosofia em Atenas (século V  a.C.), a cultura grega foi predominantemente oral. Mais do que isso, durante pelo menos  três séculos, a poesia ocupou lugar central na Grécia. Ocorre que boa parte da produção poética chegou até nós por intermédio dos alexandrinos (séculos IV-III a.C.), que já não possuíam conhecimento da música em que se fundamentava a poesia mélica (de mélos, “melodia”, “música”; “lírica” é designação tardia dos alexandrinos). Além da perda integral da música dos mélicos, outro ponto a ser considerado é que toda poesia grega foi transmitida oralmente e esteve relacionada a um acontecimento público ou privado específico.Helenistas recorrem ao termo performance para definir esse acontecimento. A performance indica o envolvimento do ouvinte com quem executa a poesia cantada e uma situação cultural particular, dependendo do âmbito a que esteve vinculada: poesia simposial  (executada entre convivas, no ambiente privado), poesia de caráter cultual (festividades de matrimônio, por exemplo), poesia de caráter religioso, entre outros.

O cânone dos nove poetas líricos foi definido pelos alexandrinos na Biblioteca, durante o século iii a.C., quase três séculos depois do primeiro poeta da plêiade inserido nesta antologia, Álcman (620 a.C.). Dos nove, não incluí Baquílides e Píndaro, autores de odes corais. Os outros sete são: Álcman, Alceu, Safo, Estesícoro, Íbico, Anacreonte, Simônides.  Considerei oportuno verter também alguns poemas de outros quatro autores do mesmo período, por sua alta qualidade: Arquíloco, Hipônax, Semônides (representantes da chamada poesia jâmbica) e Mimnermo (poeta elegíaco).

Como observei, já no período  alexandrino, a partir do qual nos chegou o registro escrito dessas obras, o desconhecimento das notações musicais e do contexto em que os poemas foram apresentados era total. Restaram-nos os textos, na maior parte fragmentados ou estilhaçados.Helenistas procuram reconfigurar algo do contexto oral em que foram apresentados, elaborando hipóteses sobre sua recepção. Trata-se de uma produção composta para uma ocasião única. Ela pode ter sido memorizada e reoralizada em outros momentos, mas, por um lado, não existe certeza sobre isso, e, por outro, não era concebida tendo em vista sua reprodução posterior. A emergência musical, performática, guarda alguma semelhança, como já se notou, com a própria dinâmica do rito, que tem a ver com a reatualização do material mitológico num contexto e numa data específicos. A consciência de que a obra dependia de sua realização num momento confere aura de fugacidade a essa produção. Talvez seja dessa consciência que decorra a alusão tão frequente na mélica à fugacidade do tempo na experiência humana. O tema do tempo irreversível e da brevidade da vida reflete de algum  modo a condição do poeta mélico. Não só a importância de vivenciar a plenitude do presente é assunto recorrente nesses autores, como outro, que lhe é afim: a noção de perda, a melancolia diante do que já é passado, seja uma relação afetiva, seja o vigor do próprio corpo. ”

Trajano Vieira

(introdução ao volume, a ser lançado, Lírica Grega, Hoje)


Safo

SAFO
(Mitilene, c. 630-580 a.C.)

A morte, para ser franca, é o que me desejo.
Ela me abandonou às lágrimas,

a um caudal de lágrimas, enquanto me dizia:
“Não foi pouco o que ambas sofremos,
Safo. Deixo-te, contrária ao meu coração.”

Segue o que lhe respondi:
“Leva o meu adeus! Preserva-me
em tua memória.
Não ignoras o quanto nos preocupamos contigo.

Caso não (te lembres)… permito-me
rememorar…
… o quanto da beleza provamos juntas.

Guirlandas, não faltaram nelas rosas
nem violetas…
… rente a mim depusestes,

tampouco grinaldas, inúmeras delas,
cujas tranças enlaçavam o colo frágil,
flores…

e… com o eflúvio
das flores…

que dignificaria uma rainha, te ungiste,

e na maciez do leito
jovial…
satisfazias tua volúpia…

Santuário não havia
um sequer…

em que não nos fizéssemos presentes,

nem bosque… dança… sonoridades…

Anacreonre, Baco y el Amor

ANACREONTE
(Teos, ativo em 550 a.C.)

Com o arremesso em mim da bola rubra, Eros
de áureos cabelos novamente me convoca
para o jogo com a moça de sandália cintilante.
Mas ela (quem sabe por ser originária
de Lesbos bem-construída),
meus cabelos (quem sabe por seu brancor)
desdenha
e aos demais abre a boca.

Restringi-me a cear o docimel, um naco.
Dei conta de uma ânfora de vinho.
Agora canto à moça sutil que eu amo
tangendo a lira em que Eros ecoa.

Portava habitualmente um barrete sórdido,
um gorro de tamanho mínimo,
pingentes de madeira iguais a dados,
uns couros de boi sem curtume grudados às costelas,
asquerosa coberta de escudo nauseabundo.
Do círculo de putas topatudo e de padeiras,
ó rebotalho Artemosão,
dizias “Eureca!” à vida de trambique.
Frequentes vezes punham no cepo seu pescoço,
com não menor frequência pregavam-no à roda,
quando não açoitavam seu costado,
ou faziam, à unha, cabelo e barba.
Ultimamente, o filho de Cici só quer saber de andar

de coche,

com brincos aurifúlgidos,
sob a sombrinha de marfim elefantino,
uma mocinha, sem tirar nem pôr.

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