Semana da Poesia: Heine

5. Heinrich Heine

Heine Hein [S53]Heine – poeta, escritor, jornalista e pensador (nascido Harry, em 1797; batizado Heinrich, em 1825; falecido Henri, em 1856) – foi uma das personalidades mais fascinantes e contraditórias do século XIX. Aluno do crítico, tradutor e teórico da literatura August von Schlegel, do linguista e sanscritólogo Franz Bopp e do filósofo Georg Hegel, ascendeu dos salões literários de Berlim à efervescente metrópole parisiense – onde conviveu com Balzac, Alexandre Dumas, Chopin, George Sand, Berlioz, Barão de Rothschild, Théophile Gautier, Franz Liszt, Gérard de Nerval, entre outros – para se tornar o primeiro artista e intelectual judeu-alemão de ampla repercussão internacional. Influenciou tanto Karl Marx, de quem foi grande amigo, quanto Nietzsche e Sigmund Freud, para ficarmos apenas entre os baluartes da Modernidade, palavra que, por sinal, ele próprio introduziu no vocabulário moderno, sem grande alarde, em 1826, quando Baudelaire tinha apenas cinco anos de idade. Multifacetado e paradoxal, Heine desafia até hoje os que tentam lhe traçar o retrato. Seu amigo e mais próximo tradutor Gérard de Nerval resumiu numa frase o fascínio e desconcerto que a imagem incapturável do poeta provocava em seus contemporâneos:
“Jamais um Proteu tomou tantas formas, jamais o Deus da Índia passeou sua alma divina numa série tão longa de avatares.”

O filósofo Friedrich Nietzsche enalteceu, paradoxalmente, o poeta judeu-alemão como poucos o fizeram na Alemanha:

O mais alto conceito de poeta lírico me foi dado por Heinrich Heine. Procurei em vão em  todos os reinos, através dos milênios, por uma música tão doce e apaixonada quanto a sua. Ele possuía aquela malícia divina sem a qual eu não consigo pensar a perfeição. (…) E como  maneja o alemão! Um dia hão de dizer que Heine e eu fomos de longe os primeiros artistas da língua alemã – numa distância incomensurável de tudo o que simples alemães fizeram com ela.Heinrich_Heine

Heine foi traduzido em profusão – na Itália, haveria até de gerar uma disputa entre os poetas Zendrini e Carducci pela primazia tradutória. Foi vertido, adaptado, parodiado e  plagiado à exaustão em todo o continente europeu, com especial intensidade nos países da Europa Oriental. Em russo, seus poemas começariam a ser traduzidos já em 1827, por seu  amigo, o poeta e tradutor Fiódor Tiútchev, um dos três expoentes da Idade de Ouro da  literatura russa, ao lado de Púschkin e de Lérmontov, que também o traduziu. O interesse por sua obra se renovaria no início do século XX, quando sua poesia atraiu a atenção de  poetas e tradutores das mais variadas vertentes – simbolistas, acmeístas, futuristas etc. –, entre os quais Blok, Annenskii, Tsvetáieva, Maiakóvski, Tinianov, Pasternak e Nabokov.

Impossível tentar compreender o fenômeno desse Proteu, sem se aproximar  simultaneamente de sua poesia, de sua prosa, de seu pensamento, pois estão hermeneuticamente entrelaçados em seu brilhante caduceu.

André Vallias


Os granadeiros

Dois granadeiros rumo à França –
Na Rússia foram prisioneiros.
Quando chegaram na Alemanha,
Desacertaram-se os ponteiros.

Souberam da triste notícia:
Que seu país foi derrotado,
O grande exército vencido,
O imperador aprisionado.

A desventura choram juntos
Dois granadeiros infelizes.
Um diz: A dor me dói tão fundo,
Que rasga antigas cicatrizes.

E o outro: O sonho se acabou,
Também desejo me acabar,
Mas tenho filhos e uma esposa,
Quem é que vai prover meu lar?

Mulher e filhos que se danem,
Almejo um fim muito maior;
Sustenham-se com mendicância –
Prenderam nosso imperador!

Irmão, te faço um só pedido:
Assim que definhar de vez,
Carrega meu corpo contigo,
Me enterra em bom solo francês.

Põe a medalha em fita rubra
Sobre o meu mudo coração;
O sabre deixa-me à cintura,
Revólver na palma da mão.

Na cova eu quero descansar
Calado, em estado de vigia,
Até de novo ouvir troar,
No chão, canhões, cavalaria.

Ele virá no corcel branco,
Veloz, já escuto o seu fragor;
Da cova, armado, então me arranco, –
Pra defender o imperador.

Die Grenadiere
Nach Frankreich zogen zwei Grenadier’,
Die waren in Rußland gefangen.
Und als sie kamen in’s deutsche Quartier,
Sie ließen die Köpfe hangen.

Da hörten sie beide die traurige Mähr:
Daß Frankreich verloren gegangen,
Besiegt und zerschlagen das große Heer, –
Und der Kaiser, der Kaiser gefangen.

Da weinten zusammen die Grenadier’
Wohl ob der kläglichen Kunde.
Der Eine sprach: Wie weh wird mir,
Wie brennt meine alte Wunde.

Der Andre sprach: Das Lied ist aus,
Auch ich möcht’ mit dir sterben,
Doch hab’ ich Weib und Kind zu Haus,
Die ohne mich verderben.

Was scheert mich Weib, was scheert mich Kind,
Ich trage weit bess’res Verlangen;
Laß sie betteln gehn, wenn sie hungrig sind, –
Mein Kaiser, mein Kaiser gefangen!

Gewähr’ mir Bruder eine Bitt’:
Wenn ich jetzt sterben werde,
So nimm meine Leiche nach Frankreich mit,
Begrab’ mich in Frankreichs Erde.

Das Ehrenkreuz am rothen Band
Sollst du auf’s Herz mir legen;
Die Flinte gieb mir in die Hand,
Und gürt’ mir um den Degen.

So will ich liegen und horchen still,
Wie eine Schildwach, im Grabe,
Bis einst ich höre Kanonengebrüll,
Und wiehernder Rosse Getrabe.

Dann reitet mein Kaiser wohl über mein Grab,
Viel Schwerter klirren und blitzen;
Dann steig’ ich gewaffnet hervor aus dem Grab’, –
Den Kaiser, den Kaiser zu schützen.

Cantiga dos dobrões

Meus dobrões, dobrões de ouro,
Para onde vocês foram?

Para o meio de peixinhos
Que faíscam no riacho,
Para cima e para baixo?

Para o meio de florzinhas
Que cintilam na campina,
Quando o sol as ilumina?

Para o meio de andorinhas
Que revoam alto, ao léu,
Rabiscando o azul do céu?

Para o meio de estrelinhas
Que, sorrindo em turbilhão,
Desafiam a escuridão?

Ah! dobrões, dobrões de ouro,
Não mergulhem no riacho,
Não se exibam na campina,
Não revoem céu acima,
Não acendam mais o facho:
Meus credores – acreditem! –
Comem vocês com apetite.

Num sonho escuro, eu
Olhava o seu retrato,
Então o rosto amado –
E imóvel – se moveu.

Nos lábios vi pousar
O riso mais bonito,
E, como umedecido,
Reacender o olhar.

Das lágrimas também
Meu rosto está molhado –
Eu não aceito o fato
Que te perdi, meu bem!

Das Lied von den Dukaten
Meine güldenen Dukaten,
Sagt wo seid ihr hingeraten?

Seid ihr bei den güldnen Fischlein,
Die im Bache froh und munter
Tauchen auf und tauchen unter?

Seid ihr bei den güldnen Blümlein,
Die auf lieblich grüner Aue
Funkeln hell im Morgentaue?

Seid ihr bei den güldnen Vöglein,
Die da schweifen glanzumwoben
In den blauen Lüften oben?

Seid ihr bei den güldnen Sternlein,
Die im leuchtenden Gewimmel
Lächeln jede Nacht am Himmel?

Ach! Ihr güldenen Dukaten,
Schwimmt nicht in des Baches Well,
Funkelt nicht auf grüner Au,
Schwebet nicht in Lüften blau,
Lächelt nicht am Himmel hell –
Meine Manichäer, traun!
Halten euch in ihren Klaun.

Ich stand in dunkeln Träumen
Und starrte ihr Bildniß an,
Und das geliebte Antlitz
Heimlich zu leben begann.

Um ihre Lippen zog sich
Ein Lächeln wunderbar,
Und wie von Wehmuthsthränen
Erglänzte ihr Augenpaar.

Auch meine Thränen flossen
Mir von den Wangen herab –
Und ach, ich kann es nicht glauben,
Daß ich dich verloren hab’!

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