Semana da Poesia: José Lino Grünewald

4.José Lino Grünewald

Escreviver [S047]“Nascido no Rio de Janeiro, José Lino Grünewald (1931-2000) foi um dos mais talentosos poetas brasileiros contemporâneos, que, com pouca ou nenhuma justiça, deixou de figurar na totalidade de antologias dos “melhores do século”, tão abundantes no recente fin de siècle. Ele faz parte de uma constelação de grandes visionários da palavra que deram à nossa lírica alguns exemplos excepcionais e também, em especial, do notável breakthrough  criativo que muitos insistiram – e insistem – em classificar como mera aventura paralingüística – a saber, a poesia concreta. Zelino começou a publicar poemas no Jornal do Brasil, em 1956. Logo se incorporou ao movimento de poesia concreta idealizado por Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, lançado há mais de meio século – exatamente em 4/12/1956, através de uma exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo, e em fevereiro de 1957, no Rio.

A obra poética de Zelino, se não é vasta, prima pela riqueza. Com a palavra, o maior de  nossos críticos de poesia, Mário Faustino (1930-1962): “JLG: o intelectual: autodeterminação, profissionalismo, estudo e trabalho sério, “in my craft or sullen art”,

Zelino

vanguarda, invenção, nenhuma turris eburnea, interesse universal […] de nível mais alto e de contribuição mais importante do que muito poeta mais velho, famoso, comentado, laureado, superpublicado, coligido,selecionado, citado. Criação de vocábulos novos, Criação de novas relações sintáticas, de novas matrizes metafóricas. Tentativas, com bons sucessos e bons fracassos, de renovação da frase musical, dentro ou fora da tradição do idioma. Capacidade evocativa. O aparente preciosismo de JLG: sempre uma necessidade experimental, trigo em todos os lotos.” Dificilmente alguém poderia resumir melhor.”

José Guilherme Correa


não fosse
a vista

não fosse a vista errante e o céu
que acolhe meus cismares
não fosses fada e fluido o véu
que envolve teus esgares –
e fosse a elegia vaga andante
tornada nau, pujante nesses mares,
arauto ou vivo facho no mirante
brasão de meus cantares –
da brisa o afã de pura e plena
sorver e contra o sol verter
da fronte o fruto-pérola, serena
oferta no fervor do meio-dia, e ter
em si certeza de ser seu o cetro;
não fosse tal e jazeria em cal
seria não mais que espuma – espectro
lavrado em rocha, roído a sal;
mas, pulso aceso, lanço rito
e largo impulso – tez dourada
ascendo ao topo e a tocha agito
até que estrelas em revoada
à luz se mesclem – já veria:
os arcos se retesam e no poente
a estrofe sobreposta à maresia
renova lenda em seu vogar dolente
e tudo se consagra – harpa e lira

ou flauta e cravo – ao ressoprar do salmo
um lasso canto, acalanto, que a pira
à hora propícia, solene, calmo
embala, enquanto, a testa ancorada
à lua influo; os cabelos em fiação
os ventos apascentam, crina alçada
eflúvio lastrando o estro, floração
voltada oeste – encanto e fé na vista
aguardo o clarão de telus, graça
final crestar minha áurea crista
na alba nova em céu sem jaça.

leste
ao longo

leste ao longo um lago de murmúrios
da longelinha em fumo, este, agonia
de um levante, dia a dia, sol pensar
poente, aurora, um S vagante espiralado
e nada – fumaça, fole, fogo
e o sempre branco desafio da folha
em frente ao acaso enquanto a face
traços conta, dois a dois, perdidos
na densa profunda névoa noite nuvem
da hora nunca do estar até que a sombra
vindo o clarão, viva e tombe
a treva no ausente e novo plano
suceda ao vazio – cão, charneca e céu
ó, que pólo e já se explora
que trevo e não se atreve?

soneto
circular

Difícil responder a tal pergunta
A pergunta que o tempo eternizou
Pois se alguém com alguém sempre ficou
São só dois corpos vãos que a vida junta.

O que é sonhar, cismar ou divagar
Definir o que é flama, fé ou flor
São flácidas palavras sem valor
Os fáceis pensamentos cor do ar.

Restaria esta inútil melopeia
De quem burila o texto e logo ri
Do verbo que se quer visão e ideia.

Mas neste espelho me olho e vejo a ti
E ganho o conhecer renovador.
A resposta é Você. O que é o amor?

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