Semana da Poesia: Mallarmé

2. Mallarmé

Mallarm_ (S02)O Mallarmé de olhos para o futuro, o que estabelece os degraus construtivos para que se constituam as novas estruturas arquitetônicas da poesia em nosso século, é, sem dúvida, o de “Um Lance de Dados” e o do apenas delineado “Livro”. Isso não quer dizer, no entanto, que o restante de sua poesia não seja relevante ou não mereça ser estudado e apreciado. Sob certos aspectos, o das microestruturas em especial, os textos anteriores – mais até do que “Um Lance de Dados”, com seu discurso fraturado, mas relativamente límpido, especulativo-filosófico, quase-prosa – parecem operar uma implosão sintática e imagética na linguagem da poesia: conflitam figuras gramaticais, relativizam a ordem do discurso, abstratizam as associações de imagens, modificando profundamente a nossa percepção e o nosso entendimento. Patenteia-se neles, desde o início, a recusa a acolher os códigos vigentes da ordem poética, ainda que, antes do “Lance de Dados”, Mallarmé aceite trabalhar com as formas exteriores da poesia convencional, sonetos e quadras, como um sabotador que preferisse atuar, com sutil estratégia, dentro do território inimigo, para aí colocar, discretamente, os seus artefatos demolidores: “Je ne connais pas d’autre bombe qu’un livre”. Ou como resumiu Sartre: “La poésie est l’unique bombe”.

 

BRISA MARINHA
A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.
Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres,
Ébrios de se entregar à espuma e aos céus imensos.
Nada, nem os jardins dentro do olhar suspensos,
Impede o coração de submergir no mar
Ó noites! nem a luz deserta a iluminar
Este papel vazio com seu branco anseio,
Nem a jovem mulher que preme o filho ao seio.
Eu partirei! Vapor a balouçar nas vagas,
Ergue a âncora em prol das mais estranhas plagas!
Um Tédio, desolado por cruéis silêncios,
Ainda crê no derradeiro adeus dos lenços!
E é possível que os mastros, entre as ondas más,
Rompam-se ao vento sobre os náufragos, sem mas-
Tros, sem mastros, nem ilhas férteis, a vogar…
Mas, ó meu peito, ouve a canção que vem do mar!

BRISE MARINE
La chair est triste, hélas! et j’ai lu tous les livres.
Fuir! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
D’être parmi l’écume inconnue et les deux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe
O nuits! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai! Steamer balançant ta mâture,
Lève l’ancre pour une exotique nature!
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Crois encore à l’adieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux qu’un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots…
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!

SANTA
Numa janela vigilante
O sândalo que se desdoura
De sua viola cintilante
Outrora com flauta ou mandora,
A Santa pálida perante
O velho livro que se escoa
Do Magnificat evolante
Outrora em vésperas e noa:
Na vidraria de ostensório
Que a harpa noturna do Anjo plange
Das suas asas de velório
Para a delicada falange
Com que, sem sândalo afinal
E sem velho livro ela vence o,
À plumagem instrumental,
Som, a música do silêncio.

SAINTE
A la fenêtre recelant
Le santal vieux qui se dédore
De sa viole étincelant
Jadis avec flûte ou mandore,
Est la Sainte pâle, étalant
Le livre vieux qui se déplie
Du Magnificat ruisselant
Jadis selon vêpre et complie:
A ce vitrage d’ostensoir
Que frôle une harpe par l’Ange
Formée avec son vol du soir
Pour la délicate phalange
Du doigt que, sans le vieux santal
Ni le vieux livre, elle ballance
Sur le plumage instrumental,
Musicienne du silence.

 

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