Semana da Poesia: Maiakóvski

1.Maiakóvski

“Já se afirmou muitas vezes ser Maiakóvski intraduzível, pois o emprego que ele faz do coloquial é tão específico, tão característico de um momento e de uma situação, que seria vão qualquer esforço de reproduzir sua obra integralmente em outra língua.Maiak_vski Poemas (S10) O próprio poeta frisou, no prefácio a uma coletânea de seus versos em polonês, as dificuldades de uma tradução desse tipo. No entanto, justamente essa dificuldade representa um desafio que deve ser enfrentado. Se não encontramos correspondências exatas entre o coloquial russo e a linguagem cotidiana de outros países, temos de procurar as soluções que mais se  aproximem desse ideal, e que possam comunicar não apenas o sentido de uma expressão, mas também o tom, a atmosfera, o conjunto da realidade de um texto, o que implica, como fator essencial, uma elaboração formal correspondente àquela que lhe deu origem.

Se na poesia russa moderna Khlébnikov foi o grande desbravador de novos caminhos (não era por acaso que Maiakóvski o considerava seu mestre), se Iessiênin expressou como ninguém a velha Rússia patriarcal e camponesa e o choque desta com a nova civilização industrial, se Boris Pasternak soube utilizar toda a nova orquestração criada pelas escolas de vanguarda e incorporá-la ao verso tradicional russo, se Eduard Bagrítzki, Óssip Mandelstam, Ana Akhmátova, Marina Tzvietáieva, Iliá Selvínski, Nicolai Zabolótzki, tiveram tantos momentos de poesia autêntica, Maiakóvski é quem apresenta uma obra que se destaca pela marca pessoal, pelo vigor expressivo, pela criação de algo absolutamente novo, e quem a coloca diante do leitor como um todo organizado e coerente. Sua poesia é sempre hiperbólica, descomunal. Quase nunca procura a suavidade. Áspero e revoltado, exigente consigo e com os demais, é bem o representante típico daqueles que “pisavam a garganta do seu canto”, conforme se expressou em “A Plenos Pulmões”.
Revolucionário nas concepções sociais e na forma que utilizou, desabusado, amigo do palavrão e do coloquial, poeta das ruas, dos comícios, das salas de conferências, Maiakóvski aparece-nos como um dos artistas mais coerentes que jamais existiram.”

Boris Schnaiderman

Um Ano Alegre
Percorremos a Rússia. Noites de poesia. Conferências. Os governos de província ficavam alerta. Em Nicoláiev propuseram-nos que não nos referíssemos às autoridades, nem a Púchkin. Com frequência, éramos interrompidos pela polícia, em meio a uma conferência. Vássia Kamiênski se uniu à cáfila. Um futurista da velha guarda. Para mim esses anos foram de trabalho formal e domínio da palavra. Os editores não nos aceitavam. O nariz capitalista farejava em nós dinamitadores. Não me compravam uma linha sequer. De volta a Moscou, residi sobretudo nas avenidas. Esta época veio a culminar na tragédia Vladímir Maiakóvski. Montada em Petersburgo. O Luna-Parque. A vaia foi de estourar os tímpanos.

Início de 1914
Sinto mestria. Posso dominar um tema. Inteiramente. Formulo a questão do tema. Um tema revolucionário. Penso em “Uma Nuvem de Calças”. A Guerra Eu a acolhi com emoção. A princípio apenas pelo seu lado decorativo e ruidoso. Cartazes encomendados e, naturalmente, de todo belicosos. Depois o verso. “A guerra está declarada”.

Agosto
O primeiro combate. Apareceu integralmente o horror da guerra. A guerra é detestável. E a retaguarda, mais detestável ainda. Para se falar da guerra, é preciso conhecê-la. Fui alistar-me voluntário. Não aceitaram. Não tinha bons antecedentes. O próprio coronel Modl teve uma boa ideia.
Inverno
Repugnância e ódio à guerra. “Ah, fechem, fechem os olhos dos jornais” e outros.
O interesse pela arte desapareceu de todo.

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