Todos os Dias, Protagonistas


Entre as escritoras, poetas, ensaístas, atrizes, cantoras, arquitetas, urbanistas, ativistas, jornalistas, advogadas, diretoras e filósofas que passaram pela editora Perspectiva ao longo dos anos, tivemos a sorte de publicar nomes de peso, protagonistas e vencedoras de todos os dias e de todas as histórias.

Temos a vontade e o dever de falar de todas elas, de uma a uma em importância e  gesto que o simples ser mulher em 2017 acarreta. Como gesto simbólico e sempre insuficiente, selecionamos alguns nomes que influenciaram e seguirão sempre ativos na literatura brasileira e universal e esperamos que seu simples citar faça o mercado e mundo editorial tiritarem com o peso, relevância e autoridade de suas obras.


Beth Miller e Rosario Castellanos

Autora de Uma Consciência Feminista: Rosário Castellanos, Beth Miller é professora da Universidade da Califórnia e autora de numerosos ensaios e livros sobre o tema, fazendo-se notar pela qualidade e combatividade de seu aporte.

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Rosario Castellanos

Em seu livro, Miller esmiúça a concepção de feminista e de intelectual de Rosario Castellanos, lançando nova luz sobre o texto e a história de sua conscientização como mulher e escritora. Castellanos nasceu na Cidade do México em 1925 e mudou-se para Chiapas ainda criança, onde cresceu totalmente afastada do universo exterior e onde sua consciência se abriu ao mundo, dividida entre dois conceitos mágicos: o da religião católica e o dos mitos degradados dos índios, o vínculo com a Terra e seus deuses. “Para conjurar os fantasmas que me rodeavam”, dirá mais tarde, “só tive a meu alcance a linguagem”. Sussurrar a origem, – eis o sentido de suas palavras. “O resgate das coisas do naufrágio que é o tempo, o esquecimento e a morte, para dotá-las de uma espécie de eternidade”.

Uma consciencia Feminista [D201].jpgCom Castellanos começa a literatura da mulher mexicana, ao fazer da condição de mulher e de mexicana a linha central de sua obra e descobrir-se em sua condição de oprimida a mesma de todas as mulheres, impotentes diante da imposição de certos padrões rígidos de conduta, subjugadas por tradições caducas e tabus de uma sociedade conservadora. O retrato dessas vidas, o universo da mulher e seus conflitos interiores estão espalhados pelos versos de busca por valores de um ser sem identidade

Através de analises do contexto sócio-político e histórico-cultural de Castellanos, Beth Miller procura demonstrar como se dão as preocupações do pensamento da poetisa que levam a uma autodefinição artística.


Anita Di Marco

Arquiteta formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, especializou-se em patrimônio histórico, tema pelo qual advoga e escreve ainda hoje. Tradutora e revisora, trabalhou com a editora Perspectiva em diversas publicações sobre a cidade moderna e a melhoria de áreas urbanas, pesquisando ainda a possibilidade de transportes alternativos e urbanismo sustentável. Entre eles estão os volumes Cidade Caminhável, A Coluna Dançante, Cidades para Pessoas e História do Urbanismo Europeu .

A Ação Nossa de Cada Dia

“Impossível listar todas as personagens femininas que marcaram a humanidade: mulheres comuns, mães, cientistas, cineastas, artistas, médicas, arquitetas, escritoras, professoras, psiquiatras, historiadoras, jornalistas, tradutoras, costureiras, filósofas…

Todas elas, batalhadoras brasileiras e do mundo, nem sempre bem compreendidas ou respeitadas, nem sempre apoiadas por aqueles que mais amavam e por quem mais trabalhavam, nem sempre devidamente valorizadas pelos resultados obtidos. Mulheres que não temem ou temeram desafios e preconceitos, que sentiam brotar de suas entranhas a garra para lutar por seus objetivos, no mais das vezes, em prol do outro. Mulheres que foram desbravando terras inóspitas, antes só percorridas por homens; foram quebrando tabus, mudando paradigmas e se impondo pela presença, pela força, pela capacidade de realizar tanto quanto pela doçura e capacidade de entender e acolher. Ousaram e quebraram padrões guiando-se, sobretudo, pelo coração.

Inegável que há mulheres, anônimas ou não, que motivaram gerações e nações; que, em suas respectivas trincheiras, desafiaram o status quo e batalharam pela paz, pelo coletivo, pelo outro; lutaram por mais respeito, mais educação, mais dignidade, mais tolerância e mais justiça social; superaram dores, enfrentaram medos e convencionalismos em busca de uma vida melhor para suas famílias e comunidades, em busca da igualdade de direitos; se insurgiram contra a tirania, contra a injustiça, contra costumes arraigados e restritivos, contra a imposição da vontade de outros sobre seus corpos e suas mentes. Todas são gigantes que lutaram e lutam por causas sociais, mas nem por isso, negam seu dom natural de matriz e geram vida, alegria, amparo e luz.  São como faróis que iluminam e balizam o caminho.

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Anita Di Marco

Exemplos vários vêm de todos os cantos da Terra, de todas as culturas e países, de todos os tempos. Pela minha formação de tradutora, professora e arquiteta, destaco uma frase em que a autora usa o termo “arquitetos da sociedade” para descrever as mulheres, além de considerá-las como filósofas instintivas. Trata-se da escritora e abolicionista americana Harriet Beecher Stowe (1811-1896), que usava sua pena como forma de luta. Chocada com a hipocrisia dos chamados cristãos escravagistas, criou o divisor de águas chamado A Cabana do Pai Tomás, publicado em 1852.

Nada mais adequado e verdadeiro. Arquiteto é aquele que cria; que, com sua ação, busca gerar harmonia, aconchego, conforto e qualidade nos espaços, para que a vida floresça e o ser humano se desenvolva em todos os sentidos. Todavia, nestes tempos atuais, em que nossa sociedade, mais do que nunca, parece estar precisando de um “recall” ou uma revisão profunda, acredito que temos que considerar que as mulheres têm sido afastadas demais dos postos onde mais poderiam colaborar para criar uma sociedade mais justa, igualitária e solidária.

Empatia, solidariedade, compaixão, acolhimento e cuidado são características femininas e sempre presentes, em maior ou menor grau, em cada mulher. Evidentemente, não são exclusividade do sexo feminino, portanto, feliz do homem que as possui, porque são características que vêm do coração, mais do que da razão.

A célebre frase de Gandhi “seja a mudança que você quer ver no mundo” deve ser a tônica de qualquer ação nossa. Não só das mulheres, mas de todos os seres humanos. Ações praticadas no dia a dia, nas situações mais comezinhas, nas relações pessoais, sociais ou profissionais, não somente em caráter excepcional. Termino com outra frase de Gandhi: “Que a mensagem seja a nossa própria vida. ”

Anita Di Marco*


Mireille Abramovici

Mireille Abramovici é conhecida nos meios cinematográficos franceses como a montadora que o jornal Le Monde qualificou de ‘Stradivarius da montagem’. Como diretora, Mireille realizou o filme Dor de Tine, o que em romeno significa Saudade de Ti, dirigido a seu pai.

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Mireille Abramovici

Mireille Abramovici, que faleceu pouco após a publicação de seu segundo romance Com Tinta Vermelha, escreve de um modo bastante particular  composto por fragmentos, frases curtas, sem conjunções aditivas, reconstitui o que poderia ter-se perdido no passado da guerra, como num roteiro cinematográfico, já que sua vida profissional está ligada ao cinema. Sem a linearidade impositiva do tempo. Estamos ora em seu instante presente, ora no presente de seus pais e dos homens da guerra.

Além dos documentos relidos em bibliotecas e instituições da França, da Alemanha e da Romênia, ela possui em mãos uma fonte de informações que hoje, nesta época orgulhosamente chamada “da comunicação”, talvez não expressasse com detalhes os sentimentos de esperança e de aflição de seus familiares: a correspondência familiar. Onde a lacônica brevidade e o utilitarismo imediato dos “e-mails” atuais nos faltam ao não redesenhar um quadro psicológico, as cartas do passado transportavam consigo a inteireza dos cenários que se foram.

A começar por uma caligrafia ainda firme por sua crença ou já indecisa pela força das P32 PR-1 (Capa) ComTintaVermelha.inddincertezas. E foi com ela que Mireille Abramovici traçou o fio vermelho do seu sofrimento pessoal e de sua gente, que é o de todo um povo, senão ou da humanidade no mais fundo do que nela é humano.


Leda Maria Martins

Leda Martins, professora de Letras na Universidade Federal de Minas Gerais, poeta, ensaísta e dramaturga, se debruça, ainda hoje, sobre a questão da negritude e a textualidade oral afro-brasileira, focalizando os Reinos Negros e os Congados em Minas Gerais, recriando a história da Irmandade de N. S. do Rosário do Jatobá. Doutora em Literatura Comparada pela FALE/UFMG, Leda Maria Martins, no dizer de Lúcia Castello Branco, “tece com maestria os fios da lembrança e do esquecimento, do vivido e do teorizado, na construção poética destas Afrografias, grafias da oralitura, transcriações, no universo do livro, das inscrições ágrafas que os congadeiros, em seus ritos, souberam preservar”. Imersa no encantamento da performance ritual, a escritora dela também se permite distanciar, “pois, portadora da letra, ocupa o lugar do escriba que transcreve, com artesania, no desenho mesmo do traço escrito, a voz que sulca o chão da memória”.

 

“Pensar a questão do negro implica mudanças de direção do olhar. Mira-se, então, a margem e as sombras que a habita(ra)m. É preciso ficar-se atento, ouvido apurado, capaz de captar ou os ecos de gritos que povoaram os dolorosos porões das galeras; ou o estalar do chicote, fina cobra, a cobrar o silenciamento e a não-revolta; ou os cantos entoados nas roças de café, açúcar ou algodão nas Américas.

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Leda Maria Martins

Espraiam-se, no lago da memória, as águas separadoras dos mundos habitados por escravos e senhores. Surge nítida a face do despaisamento de um povo para sempre despossuído e marcado pelo ferrete da dominação.

Com seus filhos espalhados pelos quatro cantos do mundo, a África deixa de ser apenas um continente geográfico para se metamorfosear em continente simbólico – estrela multiplicada.

E é a busca dessa estrela multiplicada que nos revela o trabalho de Leda Maria Martins. A postura por ela adotada no trato da questão e o vigor de sua escrita nos remetem a outras falas que, neste século, na África, nas Américas e na própria Europa procuraram costurar as dobras do planejamento da alteridade negra”.


*Referências:

- http://www.newworldencyclopedia.org/entry/Harriet_Beecher_Stowe

- http://www.harrietbeecherstowecenter.org/

2 comentários sobre “Todos os Dias, Protagonistas

  1. A Editora Perspectiva sempre inovando. Parabéns pela sua história e pelas inovações.
    Grande abraço
    Anita Di Marco

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