As Respostas Estão no Subsolo

Novo romance de Paulo Rosenbaum promete entregar respostas e mistérios da origem comum aos seres humanos. Elas não estão no céu que nos protege, mas sim no subterrâneo que nos sustenta.

 

Em Céu Subterrâneo, novo romance de Paulo Rosenbaum, a sensação labiríntica de risco e desconcerto infiltram-se pelas páginas e dominam a saga de Adam Mondale, colecionador de câmeras antigas, possuidor de uma córnea defectiva, aspirante a escritor e judeu laico. Em sua personalidade plural e interesse particular, Mondale é regido pelos mistérios que envolvem um antigo e irrecuperável negativo fotográfico, que carrega em si o insuperável da condição humana.

 


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Ao receber uma bolsa literária, Adam Mondale embarca no último voo noturno para Jerusalém, a fim de desvendar os mistérios de um antigo negativo fotográfico. Através de linguagem simples e envolvente, Céu Subterrâneo propõe uma visão crítica das sociedades atuais, divididas entre a exigência de uma racionalidade e o apelo da tradição, inclusive religiosa. De formação acadêmica laica, Rosenbaum apresenta, em forma de romance, um texto que se equilibra entre ensaio e declaração de princípios, no eterno jogo entre razão, subconsciente e valores sociais.

 

 

 

 

 

 

 

 


Desci do carro cheio de pressentimentos. Um cheiro me acompanhava na descida. Estava impregnado, mas não sabia se vinha do motorista, da rua, de um incenso ou de uma especiaria esmagada no chão. Saí do carro me arrastando instável e cheio de malas, mochila e sacolas. Sozinho, parei para olhar a viatura branca se distanciando na madrugada. O trajeto já indicava temperaturas de inverno, mas tudo só se confirmou quando parei para respirar fundo. Aquela noite gélida, escura, tinha textura. Do céu roxo gotejava aquilo que os ingleses chamam de freezing rain, gotas intermitentes que transitam entre chuva, neve e garoa. Temi pela região deserta, pelo rigor mortis da quadra, pelo esconderijo do apartamento.“Qual prédio?”

Minha residência parecia abandonada. Só uma janela acesa no terceiro piso num prédio de quatro andares.“Ops. Mas aluguei um apartamento no oitavo andar!” Em todo caso, ignorei o desconforto e caminhei em direção ao here arrastando a mala. Chamou minha atenção o letreiro de jade do muro que parecia uma lápide do século XIX.

“Montefiore Testemunhals”
Tomei coragem e entrei na viela, desequilibrado pelo piso de pedras irregulares. Fixei-me então nas calçadas com aqueles blocos enormes: as mãos do arquiteto Herodes estavam por toda parte. A escuridão esfumaçada da neblina retinha o toque noir. Uma sensação às costas indicava que eu estava sendo seguido de perto. De vez em quando eu olhava para trás, mas não surpreendia ninguém.



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Médico e escritor, Paulo Rosenbaum é pós-doutor pela Universidade de São Paulo e hoje atua na área de medicina preventiva na FM-USP. Autor de A Verdade Lançada ao Solo, romance publicado em 2010, atualmente escreve periodicamente para o jornal O Estado de S. Paulo, através de seu blog, Conto de Notícia.

 



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