O Trauma em Três Tempos

Uma reflexão original e erudita pelos meandros do trauma psíquico, no campo psicanalítico, a partir dos diálogos entre Freud e Ferenczi.

O trauma psíquico deve ser investigado a partir de histórias e casos. Ao se debruçar sobre o conceito de Nachtraglichkeit, amplamente discutido por Freud, que investiga o trauma como repartido em dois tempos, Molin procura compreender a sua constituição, como o meio exterior atua na sua formação e o que ocorre no intervalo entre a percepção do trauma e o momento do evento. Para ele, “antes da lembrança, há a experiência. Ou, utilizando palavras de Freud: devemos nos lembrar que todas as representações mentais [Vorstellungen] se originaram de percepções e de fato são repetições [Wiederholung] destas últimas”.

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O leitor deste livro acompanhará degrau a degrau, com fascínio e suspense, o entrecruzamento de múltiplas histórias/estórias que formam o desenho complexo do conceito de trauma psíquico no campo da psicanálise. Nada mais atual nesta era de catástrofes sociais que deixam restos traumáticos cotidianos que vivenciamos desde a Primeira Grande Guerra (1914-1918). É nela que o autor situa o cenário do diálogo inventivo entre Freud e Ferenczi sobre as neuroses dos soldados traumatizados. Ele deu origem à compreensão da repetição traumática que busca expressão do irrepresentável do Horror. Exímio escritor e contador de histórias, além de pesquisador rigoroso, o autor circula de maneira criativa e erudita pela clínica psicanalítica, pelas narrativas históricas e literárias e pela história dos conceitos. A escuta atenta e paciente é o instrumento psicanalítico que permite a aglutinação de fragmentos dispersos nos três tempos psíquicos do trauma, como propõe o autor: tempo do choque, tempo da ressignificação e tempo de resposta do ambiente ao choque. A escuta acolhedora testemunha as agonias mortíferas da repetição que traz as várias faces do trauma, na esperança de que surja, através da fala, alguma abertura para a renovação e o renascimento, a cada dia, com o nascer do sol.

[Renata Udler Cromberg]

Como nosso objetivo é acompanhar o que o texto acrescenta à compreensão do trauma, não o seguiremos por seus meandros, a não ser em alguns pontos. Um deles que logo nos interessa, diz respeito a uma gota d’água. Não sem atentarmos ao significado do termo, como fez questão de ressaltar o escritor polonês que já nos auxiliou no começo deste texto: “É preciso compreender o significado da expressão ‘a gota d’água’. Quando demais é demasiado. Existe uma dose de realidade cujo excesso ultrapassa os limites do suportável.”  embora não tenhamos exaurido a discussão sobre os pacientes já apresentados, ganharemos ao ouvir um novo. Escutemos o que Réal nos tem a dizer:

[Eu, Réal] Tenho 34 anos. Em menos de dez anos, abusei sexualmente de cinco crianças, sendo dois garotinhos e três garotinhas com idades de cinco a treze anos. Esclareço que não sou homossexual, apesar de ter sido eu mesmo abusado sexualmente por jovens homens quando era uma criança.[…] Nasci em uma família completamente normal, de classe média, na qual recebi uma boa educação e uma sólida instrução. De minha infância, guardo algumas lembranças problemáticas: quando, aos quatro ou cinco anos, para me punir a professora baixou minhas calças na frente das outras crianças da classe e me deu tapas nas nádegas. Completamente sem defesa frente a um adulto que abusava de sua força e de sua autoridade, vivi uma grande humilhação. Não falei com minha mãe, convencido de que ela não acreditaria em mim e que teria argumentado em favor da professora. Quando minha mãe, afinal, ficou sabendo, ela me censurou por não lhe ter dito, o que não foi muito consolador. Outra lembrança dolorosa me habita: os amigos de minhas irmãs se divertiam sexualmente comigo. Mais uma vez, sentia- me sempre impotente frente a esses maiores que me dominavam e me humilhavam ao me imporem seus caprichos e vontades.

Durante a adolescência, conta-nos Réal, ele teve uma vida sexual ativa com parceiros de ambos os sexos, estudou pouco, mas teve um bom desempenho, e envolveu-se pesadamente com drogas, como usuário e vendedor. […]

A premissa, escreve Freud, é “a de que cada vez que uma tensão não prazerosa se acumula, ela desencadeia processos psíquicos que tomam, então, determinado curso. Esse curso termina em uma diminuição da tensão, evitando o desprazer ou produzindo prazer”. Tal ponto de vista, Freud lembra o leitor, é econômico. Prazer e desprazer estão relacionados com a quantidade de excitação não ligada presente na vida mental, de forma que o último corresponde a um aumento na quantidade de excitação e o primeiro à sua diminuição. A hipótese que decorre dessa premissa é que uma das funções do aparelho psíquico é manter a quantidade de excitação não ligada o mais baixa possível para que o desprazer seja evitado.


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EUGÊNIO CANESIN DAL MOLIN é psicólogo clínico e psicanalista, mestre e doutorando pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo-IPUSP, com especialização em Psicanálise pelo Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo. Estuda as relações entre violência, traumatismo e clínica psicanalítica. Atua em São Paulo e Londrina, onde trabalhou no Creas III, que atende crianças e adolescentes vítimas de violência;  na Clínica de Fisiatria e Reabilitação de Londrina, com pacientes acometidos de doenças neuromusculares e lesões cerebrais.




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