Equações Literárias

por João Paulo Cunha ( Ex-editor do Jornal Estado de Minas)

 

A separação entre letras e números parece dividir as pessoas em dois grupos: de um lado os que gostam de literatura, artes, humanidades e poesia; de outro, aqueles marcados pela busca da exatidão, pela tradução da linguagem oculta da ciência, pelo ordenamento matemático do mundo. O livro Literatura e Matemática – Jorge Luis Borges, Georges Perec e o Oulipo , de Jacques Fux, é um esforço para mostrar o horizonte comum de caminhos bifurcados. O estudo é fruto de suas pesquisas de doutorado e pós-doutorado em literatura, que recebeu o prêmio Capes de melhor tese do brasil de Letras e Linguística.

Litertura e Matematica_3D_BB

 

A ideia de buscar interseções entre literatura e matemática tem história, tanto na teoria como na vida dos textos. Talvez os exemplos mais célebres sejam a Torá (Velho Testamento) e a Divina Comédia, de Dante. No texto sagrado do judaísmo, há uma crença na necessidade de tudo que é expresso em palavras, como se o autor, Deus, não estivesse disposto ao acaso e fizesse questão de inspirar o ordenamento exato e necessário de todos os signos, num sistema em que, quando alterado um componente, tudo deixasse de funcionar. Uma matemática sagrada da necessidade expressa literariamente. No caso de Dante, a matriz matemática é exibida na disposição dos cantos, no método das rimas, no encadeamento dos episódios.

Outra manifestação da matemática na literatura, em sentido amplo, pode ser lida em autores que se dispõem a jogar com paradoxos, jogos e enigmas, como Lewis Carrol, Júlio Verne, Kafka, Edgar Allan Poe, Arnaut Daniel e Cervantes. Em cada um desses autores é possível identificar elementos matemáticos na composição de suas obras, desde o uso de matrizes estruturais aos paradoxos lógicos, passando por jogos, criptografias e propriedades aritméticas e geométricas. No caso do irlandês Samuel Beckett, por exemplo, há até mesmo a elaboração de um programa que organiza a direção de uma cena, que resulta em indicações rigorosas de marcação para atores, iluminação e sonorização. Em todos esses autores vai se desenhando um sonho impossível da criação de uma máquina de contar histórias.

 

Jacques Fux tem como objetivo propor um estudo comparativo das obras do argentino Jorge Luis Borges e do francês Georges Perec, tendo como elemento de análise a presença da matemática, expressa nos textos literários como padrões de quantidade, estrutura, mudanças e espaço. A esses elementos se somam outros também relacionados ao campo das matemáticas, como a lógica (e sua contestação), os paradoxos, as ambiguidades e os jogos combinatórios.

A hipótese que parece inspirar o autor é que, como se trata de escritores conscientes de seus instrumentos, decifrar o raciocínio matemático que anima seus textos se torna um caminho rico de leitura. A explicitação e problematização do uso desses recursos é uma forma de alargar as possibilidades da leitura, de ampliar a recepção das ideias e de aumentar a fruição estética dos contos, romances, poemas e ensaios de Borges e Perec.

Mais que desvelar, tirar o véu que cobre o sentido, o que seria uma pura operação intelectual de erudição e pedagogia, é preciso mergulhar nos textos, entrar em suas provocações, desviar de seus jogos de despistamento, aceitar o convite lúdico das restrições propostas pelo enquadramento matemático e lógico das criações literárias dos autores estudados.

A escolha dos autores é significativa. Se Borges é bem conhecido do leitor brasileiro, que pode imediatamente se lembrar de sua lógica própria, de seus paradoxos temporais, de sua obsessão pela intertextualidade, de sua leitura filosófica criativa dos temas gregos, de sua provocação onírica aos excessos da realidade, Perec já é menos familiar. Alguns de seus livros já foram traduzidos para o português, inclusive sua obra mais conhecida, A vida modos de usar, mas em 46 anos de vida (ele morreu em 1982) publicou muito, como pode ser conferido na bibliografia do estudo de Fux, que cita 37 títulos, entre obras individuais e coletivas. São dois autores aos quais é possível, num mundo doente de especialidade, colar o nobre título de generalistas, pensadores de um saber que não conhece fronteiras epistemológicas.

Oulipo

O outro polo de comparação é o grupo Oulipo, formado por escritores que assumem o caráter intencional da literatura e buscam realizar de forma cada vez mais consciente as potencialidades de um texto, sobretudo por meio da contribuição da matemática. Como afirmava um dos integrantes do grupo, Raymond Queneau, “só há literatura voluntária”. Sai a inspiração e entra em cena o planejamento rigoroso das possibilidades do sentido. A palavra Oulipo é formada pela reunião das primeiras sílabas de ouvroir, littérature e potentille, ou seja, a aposta de um labor determinado sobre as potências de um texto literário além da primeira impressão.

Entre os autores que se inscrevem sob a chancela do Oulipo (que foi se fortalecendo com contribuições vindas da matemática contemporânea), além do próprio Perec, estão Ítalo Calvino, Raymond Queneau (autor de “Centmilliards de poèmes”, o primeiro esforço consciente de uso da análise combinatória em poesia), François Le Lionnais e Jacques Roubaud. Os trabalhos produzidos por autores que mesclavam literatura e ciência de forma cada vez mais sofisticada ganharam feições inusitadas de teoremas, paradoxos, logogrifos, narrativas policiais e jogos literários armados com lógica impecável.

Jacques Roubaud – “Vida: Soneto” (0, 1)

 

O corpo da tese de Jacques Fux é o estudo da forma como a matemática é trabalhada distintamente nas obras de Borges e Perec. O uso de elementos técnicos pode afastar o leitor não especialista (um eco daquela separação anunciada no começo da resenha, que cinde o mundo em dois tipos de seres monolíngues), mas abre ao leitor vias interessantes de ampliação da leitura. São, dessa forma, decodificadas as estruturas matemáticas trabalhadas por Perec e Borges em suas obras, bem como debatidos temas como a influência da cabala e das citações e plágios nas obras dos dois escritores.

Numa perspectiva comparativista, são analisados os recursos lógicos e matemáticos apresentados em vários textos de Borges a partir do referencial proposto pelos autores do Oulipo e por Perec. Assim, tanto é apresentada uma leitura perecquiana de Borges como uma análise borgiana de Perec. No último capítulo, “Borges e Perec”, Jacques Fux estuda o que aproxima e distancia os dois criadores em matéria de literatura e referências matemáticas, seja em termos filosóficos, de conhecimento técnico e de conexões com outros campos do saber. Um dos tópicos mais interessantes mostra a forma distinta com que os dois escritores tratam do tema da classificação, dos ordenamentos, das listas e dos inventários.

Na conclusão, o autor volta a se perguntar sobre o sentido de trabalhar a matemática na literatura. O que as lições de Borges, Perec e dos oulipianos parecem indicar é que há um novo espaço, que não está nem na literatura nem na matemática. Esse lugar, ao mesmo tempo pleno e vazio, abre novo olhar sobre as duas formas de expressão, gerando uma arte mais rica em intencionalidade e surpresa e uma lógica mais suscetível aos sustos da imaginação. Algo como a interpretação, com letras e números, de um livro de areia.

 

Litertura e Matematica
Literatura e Matemática
Jacques Fux é matemático com doutorado em Literatura pela UFMG/Lille 3, foi pesquisador visitante na universidade Harvard, entre 2012 e 2014. Em 2013, venceu o prêmio São Paulo de Literatura. É autor de Brochadas (Rocco, 2015).

 

 

 

 

 

 

 

 

 





LEIA TAMBÉM!





João Paulo Cunha é formado em filosofia, psicologia e jornalismo. Trabalha há 27 anos como jornalista, sendo 18 deles passados no jornal Estado de Minas. Editor chefe do caderno de Cultura, do caderno TV, Divirta-se e do suplemento que circula aos sábados, o Pensar. Em 2011, João Paulo lançou o livro “Em Busca do Presente”, com artigos publicados na sua coluna “Olhar”.




 

O livro Literatura e Matemática será lançado dia 4 de setembro, no Museu da Imagem e do Som – MIS, como parte da programação do CineCiência!

O evento contará com a exibição do filme Alice no País das Maravilhas, além de palestra com o autor, mediada por José Luis Goldfarb! Convite. Final psd

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s