Ribalta (C)rua

Seja pela frequência do transeunte ou pela via semiótica, as calçadas urbanas alimentam-se do persistir comunicativo e fluxo de ideias

 Com o aparecimento de grandes cidades e a noção de público e privado, algo se perde no imaginário das ruas. O pensamento mercadológico avança sobre o campo das artes e tudo aquilo que se considera rentável é fechado e obstruído pelo preço de ingressos e salas fechadas. As ruas, entendidas como território inacessível ao capital e à exploração privada, passam a representar o espaço das aflições, palco das adversidades e perigos da cidade. Na luta pelo resgate do espaço público como espaço de criação e formação cultural, Licko Turle e Jussara Trindade nos trazem Teatro(s) de Rua do Brasil.

 

Teatros de Rua_IT02_3D_LSC

 

Foi a verificação de um incômodo generalizado proveniente da marginalização do teatro de rua que produziu o mote para pesquisa e publicação de Teatro(s) de Rua do Brasil: A Luta Pelo Espaço Público, que vem a suprir a necessidade de uma maior compreensão acerca de grupos e indivíduos devotos à arte em sua forma mais acessível.

Para o artista, o que se conhece por teatro de rua é, na verdade, um conjunto complexo de expressões, uma forma de revitalizar o familiar do espaço urbano. Enquanto fenômeno, não se define pura e simplesmente pelo espaço que ocupa, mas sim como forma de manifestação pautada pela democratização de um palco corajoso e inovador.

Uma forma de arte que leva em seu bojo a instabilidade do espaço, adaptando e incorporando estas particularidades a sua produção, mas acima de tudo uma rede de manifestações cênicas regida pela desobstrução da cultura e ideal de público.

A “rua” parece, entretanto, ser o termo que se mantém no jargão teatral como uma espécie de denominador comum a todas as expressões cênicas que se apresentam fora do edifício teatral convencional, sob as condições próprias de espaços que, a princípio, podem ser usufruídos por qualquer pessoa que por ali estiver passando, transformando- se momentaneamente em espectador ocasional. Até pouco tempo atrás, a maioria dos grupos de rua brasileiros utilizava em suas apresentações uma disposição espacial circular que, considerava-se, facilitaria a aproximação do público por todos os lados, estabelecendo com este uma relação, em princípio, igualitária. Por vários anos, a roda foi o espaço preferencial dos fazedores teatrais de rua, sobretudo aqueles que mantinham relações mais estreitas com as expressões da tradição popular e tinham sua proposta estética baseada em manifestações, folguedos e festividades de caráter religioso/profano. De alguns anos para cá, porém, o desejo de um espetáculo deambulante que caminhasse pelas ruas, saindo de seu nicho de segurança dentro da “bolha” formada pelos atores em ação para penetrar nos complexos fluxos urbanos, levou muitos coletivos a estabelecerem outros tipos de espacialidade cênica e, portanto, outras formas de relação com o público e com a cidade. Nesses  espetáculos, os deslocamentos espaciais dos atores e das próprias cenas rompem com a estaticidade comumente atribuída ao teatro de rua em função da espacialidade em roda, predominante na vertente tradicional dessa modalidade, criando em alguns momentos diferentes situações de intervenção ativa sobre o espaço urbano – procedimento mais ligado a uma proposta contemporânea e “invasora” de teatro de rua em que a cena teatral toma repentinamente, a cidade “de assalto”.

 

JUSSARA TRINDADE

   Jussara Trindade 3_SKMestre e doutora em Artes Cênicas, pesquisadora do PDJ/CNPq  do PPGAC no Núcleo de Estudos das Performances Afro-Ameríndias-NEPAA/UNIRio. Ministra desde cursos e oficinas para estudantes e profissionais de música e teatro, educadores e terapeutas. Autora de Tá na Rua: Teatro Sem Arquitetura, Dramaturgia Sem Literatura, Ator Sem Papel (2008), Teatro de Rua no Brasil (2010) e A Contemporaneidade do Teatro de Rua (2014).

É diretora geral do centro de criação e pesquisa Aldeia Casa Viva e preparadora musical do coletivo teatral Mambemberê em Teresópolis.

 

 

 

LICKO TURLE

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Professor residente do PAPD Capes/Faperj no Núcleo de Estudos das Performances Afro-Ameríndiass- NEPAA/UNIRio e coordenador do GT Artes Cênicas na Rua da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas-Abrace. Autor de diversas publicações, entre elas Teatro do Oprimido e Negritude e Tá na Rua: Teatro Sem Arquitetura, Dramaturgia Sem Literatura, Ator Sem Papel. Recebeu os prêmios Procena, da Secretaria de Cultura-RJ (2001), Artes Cênicas na Rua (2009), Interações Estéticas (2010) e Arte Negra (2013) da Funarte e Rumos Itaú Cultural (2014). É diretor do centro de criação e pesquisa Aldeia Casa Viva onde ministra cursos e integra o coletivo teatral Mambemberê, ambos em Teresópolis





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