Literatura, Matemática e Poesia em Diálogo

Jacques Fux


Ele sabia quando parar de formalizar e começar a cantar – ou melhor, quando fazer os próprios rigores formais cantarem.
John Barth

Letras e números costumam ser vistos como símbolos opostos, correspondentes a sistemas de pensamento e linguagens distintas e por vezes incomunicáveis. Essa perspectiva, no entanto, foi muitas vezes refutada pela própria literatura, que em diversas ocasiões valeu-se de elementos matemáticos como forma de melhor explorar sua potencialidade e de amplificar suas possibilidades criativas. O livro Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o Oulipo  pretende explorar o ambiente de encontro literário-matemático, apresentando algumas das muitas experiências do rico diálogo entre as letras e os números realizadas ao longo da história literária.Com maior profundidade, o livro investiga as obras de Jorge Luis Borges, Georges Perec, Ítalo Calvino e, também, os trabalhos de um grupo emblemático conhecido como Oulipo, (Ouvroir de Littérature Potentielle), um atelier literário-matemático  fundado na França em 1960 e que até hoje se reúne periodicamente.

 

A utilização da matemática no campo literário se dá por meio da estrutura restritiva (regras de ritmos, sons, linguagens, etc.), mas também na apresentação, reflexão e transformação da matéria narrativa em problemas de ordem lógica – como paradoxos, ambiguidades e jogos combinatórios – que objetivam complexificar a narrativa e aumentar sua potencialidade, ampliando as possibilidades de leitura. É certo que nenhuma leitura é unívoca: o texto, por si só, não diz nada; ele só vai efetivamente produzir sentido no momento em que é lido. Levando ao extremo tal perspectiva, um texto seria capaz de produzir tantos sentidos distintos quanto fossem as leituras dele feitas.

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Quadrado mágico que apresenta a frase palindromática ‘sator arepo tenet opera rotas’

 

Qual seria, então, o papel da matemática nessa relação de amplificação potencial? Por que se considera que os jogos combinatórios aumentam as possibilidades de leitura? Nesse sentido, a própria noção de potencialidade torna-se fundamental: potencial é o que ainda não existe concretamente, mas é passível de existência por apresentar-se como possibilidade latente. Então, se dois leitores, diante do mesmo texto, apresentam diferentes possibilidades de leitura, o que acontece com essa potencialidade se os textos ainda puderem ser permutados, alterados, jogados, falsificados, ludibriados? A matemática potencializa o texto, tornando ainda mais amplo seu campo de leituras possíveis a partir de algoritmos, regras, restrições e contraintes, num contínuo processo de expansão:

Mesmo que o projeto geral tenha sido minuciosamente estudado, o que conta não é o seu encerrar-se numa figura harmoniosa, mas a força centrífuga que dele se liberta, a pluralidade das linguagens como garantia de uma verdade que não seja parcial (CALVINO, 1995, p. 131).

Alguns recursos matemáticos utilizados na literatura já podem ser encontrados em livros clássicos como a Torá ou a Divina Comédia. A Torá foi concebida como um livro que não admite contingência: tudo o que lá se encontra compõe um sistema bem estruturado, matemático e fechado e qualquer mudança de letra, frase ou parágrafo poderia desestabilizar o mundo, de acordo com a Cabala. Já a Divina Comédia é narrada em 3 partes de 33 cantos (embora o Inferno tenha uma introdução), escritos em tercetos de decassílabos rimados de modo alternado e encadeado, seguindo a estrutura abc bcbcdc. O seu sistema gira em torno do número primo três, que simboliza a aceitação e o fundamento/postulado da religião cristã. Inicialmente, a inclusão de paradoxos, de jogos, de enigmas lógicos e de estruturas e conceitos matemáticos não era sistemática, apesar de esses componentes terem sido largamente utilizados.

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Relação e deslocamento entre os apartamentos do prédio de A Vida Modo de Usar, de Georges Perec

Esse diálogo com a matemática também pode ser encontrado em Cervantes. Na composição de Dom Quixote, obra que em vários de seus trechos exalta a matemática numa postura romântica que ainda vê, nessa ciência, uma autoridade, reflexo da crença de que conhecer e provar alguma teoria matematicamente é garantia de tranquilidade para a continuidade do raciocínio. Essa visão, entretanto, da matemática como uma ciência perfeita, coerente e consistente, dilui-se no início do século XX, diante dos Teoremas de Incompletude de Gödel.[1]

Mas não é apenas nas referências à matemática que Cervantes se firma, recorrendo também o autor aos paradoxos lógicos como recurso ficcional, como numa passagem do livro que narra o período em que Sancho foi governador de Barataria, momento em que precisou solucionar complicadas questões de seus súditos em busca por justiça. Cervantes se vale, nesse momento, de uma variação do paradoxo do mentiroso, atribuído ao grego Eubulides de Mileto no século IV a.C., que em sua mais simples versão assim se constitui: um homem diz que está mentindo; o que ele diz é verdade ou mentira? É essa a situação que se reflete no texto de Cervantes:

Se deixarmos passar este homem livremente, ele mentiu no seu juramento e, portanto, deve morrer; e, se o enforcamos, ele jurou que ia morrer naquela forca, e, tendo jurado a verdade, pela mesma lei deve ficar livre (CERVANTES, 2002, p.577).

Se esse paradoxo, a princípio, pode parecer inocente, foi a dificuldade de sua resolução que levou à criação da Teoria Axiomática de Conjuntos atribuída a Bertrand Russell e que pode, por meio de outro movimento, servir à literatura como importante recurso ficcional: o paradoxo do mentiroso, aplicado à matemática e à lógica, criou problemas e novos caminhos para sua solução; na literatura, foi utilizado em inúmeras versões por escritores como Cervantes e, posteriormente, Jorge Luis Borges, escritor para quem a matemática se constitui como recurso criativo fundamental.

Lewis Carroll, além de escritor foi um importante matemático,também utilizou como estratégias ficcionais de suas obras conceitos estritamente matemáticos e lógicos. Muitas passagens de Alice no País das Maravilhas e Alice através do espelho estão repletas de enigmas e problemas que até os dias de hoje permitem aos leitores múltiplas interpretações. É o caso, por exemplo, dos problemas de relógios apresentados pelo escritor –qual dos relógios marca o tempo mais fielmente? Um que se atrasa um minuto por dia ou um que está sempre parado? –, ou de sua fixação com as imagens dos espelhos e com o jogo de xadrez. É esse motivo triplo que percebemos como fio narrativo do seguinte trecho de Alice através do Espelho:

Em seguida começou a olhar em volta e notou que o que podia ser visto da sala anterior era bastante banal e desinteressante, mas todo o resto era tão diferente quanto possível. Por exemplo, os quadros na parede perto da lareira pareciam todos vivos, e o próprio relógio sobre o console (você sabe que só pode ver o fundo dele no espelho) tinha o rosto de um velhinho, e sorria para ela.

Esta sala não é tão arrumada como a outra, Alice pensou, ao notar várias peças do jogo de xadrez caídas no chão entre as cinzas; mas no instante seguinte, com um pequeno “Oh!”de surpresa, estava de gatinhas,observando-as. As peças de xadrez estavam andando, duas a duas! (CARROLL, 2002, p.139).

Essa concepção narrativa de Carroll, na qual literatura e matemática imbricam-se profundamente, é fundamental para a produção de autores como Borges e Perec, que posteriormente aplicarão exaustivamente os recursos matemáticos e lógicos em sua prosa.

Este livro, portanto,propõe um resgate do romantismo da possibilidade do encontro de todas as ciências, uma viagem pelo mundo das letras e dos números, da literatura comparada e das ficções e romances de Borges, Perec e de outros escritores, poetas, estudiosos e sonhadores.

Jacques Fux


[1]Em seus teoremas, Gödel prova que um sistema axiomático não pode atestar sua própria consistência e que, caso ele o faça, só pode ser inconsistente. Além disso, em sistemas com o poder de definir os números naturais, sempre há proposições (chamadas “indecidíveis”) que não podem ser provadas dentro do sistema (portanto, o sistema é incompleto). Assim, não se pode provar a completude e consistência de um sistema capaz de fazer aritmética.


 

 

Litertura e Matematica_3D_BB

Neste Literatura e Matemática, Jaques Fux analisa as obras de Georges Perec, Jorge Luis Borges e outros escritores associados direta ou indiretamente ao grupo Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle), cujos escritos se utilizam de regras e conceitos matemáticos na concepção e construção das narrativas, para expor a incorporação de conceitos matemáticos diversos na literatura ficcional e nos jogos de linguagem.

Dedicado à lógica combinatória, Perec se destaca pelo uso de regras e estruturas matemáticas, ao passo que Borges mergulha nos desmedidos paradoxos do conceito de tempo e da palavra. Cada autor, com diferentes potências imaginativas, converge no fascínio pela Cabala, impasses, dilemas e enigmas literários. Partindo do pressuposto do filósofo francês Jacques Derrida de que “um texto só é um texto se ele oculta, ao primeiro olhar, ao primeiro encontro, a lei de sua composição e a regra de seu jogo”. Fux trabalha em duas áreas distintas para nos mostras
as engrenagens dessas “máquinas de contar histórias”. O conhecimento profundo de matemática é prescindível, especialmente no que diz respeito a uma primeira leitura das obras analisadas, mas seu entendimento possibilita uma outra leitura dessas obras, multiplicando sua potencialidade, o que propicia novas descobertas acerca de textos supostamente já conhecidos. Um livro aberto dificilmente leva um leitor a considerar as possibilidades e os jogos combinatórios que a literatura esconde. Mas talvez devesse.



JACQUES FUX

 

Foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2013 com o livro Antiterapias e do Prêmio CAPES de Melhor Tese de Letras/Linguística do Brasil em 2011. Pesquisador Visitante na Universidade de Harvard (2012-2014), pós-doutor em Teoria Literária pela Unicamp e pós-doutorando em Literatura Comparada pela UFMG. Doutor em Literatura Comparada e Doutor em Língua, Literatura e Civilização Francesa (UFMG/Lille 3). Graduado em Matemática e Mestre em Ciência da Computação pela UFMG. Autor do livro Brochadas (Rocco, 2015)

 

 

 

 

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