Poeta Transcriador

O concretismo, que constitui uma revolução no modelo poético brasileiro na segunda metade do século XX, parecia nos últimos tempos dormitar nos recantos da história, apesar de contar com a presença de um dos principais expoentes no Brasil, e com muitos seguidores na literatura e na música, rastros visíveis de sua influência nas novas gerações de poetas e leitores.

Esta presença se tornou marcante recentemente em manchetes da mídia, não só com a premiação de Augusto de Campos, que mereceu a distinção chilena dedicada a Pablo Neruda, como, o que é mais importante, pelo poder dessa poesia de falar a linguagem viva de sua força e de sua mensagem, tanto visual e estruturalmente, quanto na potência da sensibilização que uma coletânea como Despoesia continua sendo capaz de provocar em quem se disponha a folheá-la.

J. Guinsburg


A Multipoesia de Augusto de Campos

Texto contribuição do poeta Claudio Daniel 

Augusto de Campos realiza uma pesquisa poética regida pelo signo da invenção, utilizando recursos das tecnologias digitais que permitem integrar palavra, som, imagem, movimento, tempo e espaço em composições que solicitam a participação inteligente do leitor para a construção de significados. Em Criptocardiograma, peça que integra a série Clip-poemas, publicada em sua página na internet, a leitura é interativa: cabe ao leitor arrastar as letras de um menu-alfabeto para dentro de um campo de ícones, substituindo cada ícone por uma letra para compor o poema, numa operação lúdica que recorda o engenho barroco da poesia visual labiríntica. A interatividade está presente no trabalho do poeta paulistano desde Colidouescapo (1971), pequeno álbum com folhas soltas que podem ser intercambiadas em diferentes sequências, permitindo a construção de palavras inusitadas, pela recombinação de morfemas (destinto, desescanto, resiscanto). Em Poemóbiles (1974), obra realizada em parceria com o artista visual Júlio Plaza, o autor nos apresenta a um ciclo de doze poemas-objeto coloridos tridimensionais manipuláveis, assim como as esculturas móveis de Alexander Calder, que podem ser lidos na horizontal, na vertical ou na diagonal, de baixo para cima ou de cima para baixo, numa pluralidade de rotas interpretativas. O poema Viva Vaia, que integra o conjunto, chama a atenção pela tipologia empregada, que abole as fronteiras entre palavra e imagem: os signos visuais podem ser lidos como letras e ainda como formas plásticas, recuperando a dimensão visual da escrita.

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Reprodução do poema VIVA VAIA
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Reprodução do poema VIVA VAIA na exposição REVER, no SESC Pompéia

Este é um dos aspectos centrais na poesia de Augusto de Campos, um dos fundadores da Poesia Concreta – ao lado de seu irmão Haroldo de Campos e de Décio Pignatari – e atinge o ponto de maior desenvolvimento na Caixa preta (1975), conjunto de poemas visuais e poemas-objeto elaborados novamente em parceria com Júlio Plaza, no qual se destaca o poema Pulsar, em que as letras mesclam-se a sinais gráficos como círculos e estrelas, que substituem as vogais.

A peça foi musicada por Caetano Veloso e consta na gravação em vinil que acompanha a Caixa preta. A relação de Augusto de Campos com a música é antiga: já no ciclo de poemas coloridos de temática amorosa Poetamenos (1955), publicado no segundo número da revista Noigandres, a sintaxe discursiva é substituída pela organização gráfico-visual das palavras, inspirada na técnica da “melodia de timbres” do músico austríaco Anton Webern (cada cor equivale a uma nota distribuída a um instrumento musical diferente). É preciso destacar também a poesia participante de Augusto de Campos, especialmente os poemas Greve (1961), Luxo / Lixo (1965), construído como paródia das logomarcas comerciais, e a série de poemas-cartazes Popcretos (1964-1966), que afirmam a contestação da ordem capitalista via linguagem. Em Psiu, poema circular construído a partir da colagem de textos e imagens recortados de jornais e revistas, lemos a frase “Saber viver, saber ser preso, saber ser solto” junto a retalhos semânticos como “bomba”, “dinheiro”, “amar”, “livre” e “paz” e de “pedaços de mensagens comerciais, referências à ditadura militar e aos atos institucionais”[1], como observou Flora Sussekind.  Os poemas mais recentes de Augusto de Campos estão reunidos em Despoesia (1993) e Não (2003), além do volume Viva Vaia (2001), que reúne seus primeiros livros, e do CD Poesia é Risco (1994)  realizado em parceria com o músico Cid Campos, e no recém-lançado Outro (2015). O poeta desenvolve hoje trabalhos na área da poesia digital, utilizando programas de multimídia para explorar a animação e a interatividade, que podem ser acessados no site.


Um pouco da exposição REVER, homenagem à obra de Augusto de Campos.

O panorama exposto no SESC Pompéia se inicia nos anos 1950, e chega aos dias atuais. Composta por obras que reproduzem seus poemas em formas de esculturas, instalações, objetos e áudios, REVER procura exaltar a materialidade do movimento concretista, parte das vanguardas artísticas do século XX  e fundado no Brasil pelos irmãos Campos e Décio Pignatari.



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AUGUSTO TRADUTOR, AUGUSTO ENSAÍSTA
Em quatro volumes publicados pela coleção Signos, Augusto mostra a versatilidade de sua obra e apresenta suas traduções ao lado de ensaios e comentários acerca das obras de autores cuja importância julga de valor inestimável. Livros imprescindíveis para os amantes da boa poesia, alunos e professores interessados pela literatura, dos mais variados artistas e movimentos estéticos, esta série apresenta poesias escolhidas pelo autor e acompanhadas de seus originais, sem que lhes faltem ensaios reflexivos que enfatizam a importância da valorização do passado e de suas extensões na atualidade.
A coleção Signos se compromete a resgatar os paradigmas estéticos da cultura brasileira e no movimento literário da vanguarda.

 

POESIA DA RECUSA
Augusto oferece traduções e ensaios daqueles que considera grandes defensores da negação e resistência. O poeta  reuniu, com a peneira da recusa, poemas cuja natureza estética e ética transparecem a revolução, seja ela política ou técnica. Poesia da Recusa é, segundo o próprio, um baluarte contra o fácil e, acima de tudo, a precisa homenagem a extraordinários poetas que passam parte ou a totalidade de suas vidas e memórias sob a sombra do convencional.
Com alguns poemas de cunho extremamente politizados (e outros nem tanto), a subversão dos poetas se faz através da recusa do certeiro. Passando por nomes como Mallarmé, Dylan Thomas, Anna Akhmátova, Sierguéi Iessiênin e Gertrude Stein, Augusto representa estes que merecem ser defendidos através de traduções e ensaios, sempre a espreita da poesia revirada.

 


LITERATURA NO INTERLÍNGUAS
Em antologias de poetas tão emblemáticos e necessários quanto Maiakóvski e Mallarmé, Augusto apresenta versões bilingues de diversas obras primordiais a qualquer interessado por literatura clássica ou contemporânea. O universo da moderna escritura poética, pela pena de Augusto de Campos, encontra nestes volumes o paradeiro ideal e traduções criativas magistralmente elaboradas, nas quais a palavra e o som, na especificidade
de seus jogos verbais, métricos e musicais, cobrem um arco temporal que vai do Simbolismo até as tendências modernas e contemporâneas.
Nestes volumes tão completos quanto complexos, encontram-se textos que nos maravilham e nos surpreendem na solidez das imagens em que compactam a fluidez das angústias e incertezas humana.

 


AUGUSTO MUSICÓLOGO
Em projetos relativos à música, Augusto tenta conceber a biblioteca básica de nomes que abriram os caminhos das novas vertentes musicais, tanto mais quanto julga que estas obras sofrem, não só a marginalização decorrente do preconceito artístico, como da recusa de divulgação da música erudita e de vanguarda pelos diferentes meios e mídias. Segundo Augusto, “o público pode mais, se informado”.

Somente um poeta tão versado quanto este poderia habilitar-se a missão que aqui se instaura. Através deste mantra de conhecimento, os ensaios provenientes da faceta musical de Augusto de Campos abrangem ideias que se iniciam no século XIV e se desenrolam até a contemporaneidade, passando por compositores como Machaut, e.e. cummings e Erikah Badu.

 


 

AUGUSTO DE CAMPOS E A POESIA CONCRETA

A poesia de Augusto de Campos fendeu algo de crucial na estrutura lírica. O concretismo brasileiro encontra nele todos os limites da poesia, triturando-os e reconstruindo-os. A trilogia Outro, Despoesia e Não alertam a tendência ao recuo e à recusa, e assim o poeta não pretende esconder suas buscas polissêmicas, sempre postas em questão e suspenso pelo dilema do fazer e ler poesia. Explorando a relação entre forma e conteúdo em versos que colocam em xeque a estrutura da palavra pelo jogo entre imagem e som, sua articulação verbovocovisual desencadeia, como efeito de abordagem concreta e concretista, o palpitar de suas cores, convertendo-as em arietas na quebra de significado e significante. Em trabalho sempre levado ao extremo rigor, aqui estão reunidos alguns dos trabalhos mais importantes do movimento concretista.

 

Veja como foi o lançamento de OUTRO, na Casa das Rosas!



[1] GUIMARÃES, Júlio Castañon e SUSSEKIND, Flora (organizadores). Sobre Augusto de Campos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2004, 155.

 


Claudio  Daniel, autor de Figuras Metálicas é poeta, tradutor e jornalista, publicou os livros de poesia Sutra (edição do autor, 1992), Yumê (Ciência do Acidente, 1999) e A Sombra do Leopardo (Azougue Editorial, 2001), este último vencedor do prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, oferecido pela revista CULT. Participou das antologias New Brazilian & American Poetry (revista Rattapallax n. 9, New York, 2003), organizada por Flávia Rocha e Edwin Torres, Pindorama, 30 Poetas de Brasil (revista Tsé Tsé n. 7/8, Buenos Aires, 2001), com seleção e tradução de Reynaldo Jiménez, e Cetrería, Once Poetas Brasileños (ed. Casa de Letras, Havana, 2003), organizada e traduzida por Ricardo Alberto Perez. Sua página pessoal na Internet é http://www.claudaniel.hpg.ig.com.br.

2 comentários sobre “Poeta Transcriador

  1. …curioso…somente a ‘AVE'(lá dos idos dos anos 50…)subverte toda essa ‘novidade’ dos irmão campos…sem palavras, a poética! …de wlademir dias-pino!
    – augusto silencia! …faz tempo que foi desmoronado!

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