A Música e o Crime

Quando a política se apropria da arte, utiliza o apuro técnico de uma orquestra e a tradição musical de um povo para comprovar “cientificamente” sua supremacia racial

 

A Mais Alemã das Artes
A Mais Alemã das Artes

Devastada e humilhada após a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha elege um governo nacionalista que rapidamente, mas com sólido apoio popular, destrói sua frágil democracia e instaura um regime de implacável perseguição a minorias e adversários políticos. O III Reich nasce fazendo a apologia da raça ariana pura e usa o protagonismo cultural do país na história como elemento-chave para reerguer o devastado orgulho nacional e estimular o ódio racial, manipulando as realizações de grandes autores e criadores alemães, com interpretações para lá de duvidosas.
A música, e a mítica Orquestra Filarmônica de Berlim em particular, cumpre uma série de incumbências relacionadas ao conceito de identidade nacional, servindo como instrumento conveniente e aproveitável para a ascensão do horror nazista. É esta a história de A Mais Alemã das Artes.

 

Alicerçados por um componente central do orgulho alemão, estudiosos voltaram-se à música como peça integrante de seu conjunto identitário, mas mais do que isso, como uma fonte de entretenimento e distração da qual todos os alemães poderiam desfrutar, uma atividade saudosa de tempos mais certos, nos quais a Alemanha garantia sua superioridade intelectual através da música. Assim, a musicologia, enquanto ciência e didática, percorreu um trajeto bastante particular neste contexto histórico mais particular ainda.

Em A Mais Alemã das Artes: Musicologia e Sociedade da República de Weimar ao Fim da Era Nazista, Pamela M. Potter pretende explorar a relação de causa e efeito que a música alemã partilha com o contexto de conflito mundial, estudando, portanto, a ascensão da musicologia na Alemanha do pós, entre e durante guerras. Para além disso, é possível, ainda, divisar práticas políticas correntes, com formas de atuação muito semelhantes às do regime nazista em relação à orquestra, e que ainda perduram na constituição de grandes projetos culturais e esportivos.

 

Em 1878, Richard Wagner proclamou que a essência alemã encontrava-se na música. Sessenta anos depois, em 1938, na abertura do maior encontro musical do Terceiro Reich, o ministro da propaganda, Joseph Goebbels, reafirmou, frente à multidão, que a música era a arte mais gloriosa do patrimônio cultural alemão. Até hoje, o mito da Alemanha como a “pátria da música” toma o mundo. O catecismo da música clássica requer familiaridade com os três “B’s” – Bach, Beethoven, Brahms, todos alemães; as salas de concerto perpetuam os nomes dos grandes mestres alemães em seus repertórios; a história da música, basicamente, é ensinada como uma progressão rumo à autorrealização alemã; e até hoje, Alemanha e Áustria continuam a atrair estudantes e experts em música, da mesma forma que os governos desses países não param de investir na preservação de suas
impressivas instituições musicais, bem como em eventos e projetos na área musical. A percepção popular da música ocidental assume que os alemães sempre estiveram no centro do enriquecimento da arte musical.

 

 

A AUTORA:

Pamela M. Potter é professora de musicologia na Universidade de Wisconsin-Madison e diretora do Centro de Estudos Alemães e Europeus. Sua pesquisa concentra-se na relação entre as artes e as condições ideologias, políticas, sociais e econômicas, do século XX. Além de A Mais Alemã das Artes, Potter também escreveu Music and German National Identity e Art of Suppression: Confronting the Nazi Past in Histories of the Visual and Performing Arts, obras que também suscitam questões acerca da cultura nazista e suas estéticas.

 Pamela Potter
Pamela Potter

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