O que eram as ruas da tua infância, Jacó?

Quem conhece Jacó Guinsburg, um dos maiores teóricos de teatro do Brasil, crítico, ensaísta, tradutor e professor, não consegue imaginar que um dia esse grande gênio teve qualquer dificuldade na escola.

Mas, para desespero geral de sua família, Jacó não se entendia com o ensino formal quando garoto. Imigrante recém-chegado da Bessarábia, nunca conseguiu ser grande amigo dos ensinos convencionais. Como convencer um amante dos livros a se apaixonar pela análise sintática dos Lusíadas? Como convencê-lo a não cabular aulas para passar o dia na Biblioteca Municipal? Ele não levava jeito pra coisa.

Em entrevista dada a Revista República em 1997, Jacó se defende: fora da escola havia uma coisa fantástica: a vida! E as ruas!

Hoje, quase 20 anos depois, ele sustenta o argumento. As ruas eram mais interessantes que a escola, que as equações e as análises sintáticas. O mesmo valeu para sua vida profissional. Passou por fábricas e lojas, mas desde o início já estava claro qual seria a atividade da sua vida.

 

12065936_865253443570037_7930156467832307995_n

De fato, ele não levava jeito para a coisa em sua forma mais pragmática, mas para outras coisas, ele levava mais que a maioria. Disciplinas como língua francesa e história Jacó aceitou com facilidade, usando-as ainda como abertura para empreitadas mais densas.

Logo, como não poderia ser diferente, aos 16 anos foi preso distribuindo panfletos do PCB. Jovem e visionário, sonhava com aventuras revolucionárias e com o Partido Comunista, e a ligação com a literatura socialista em Ídiche foi o caminho que acabou por levá-lo a frequentar clubes e sinucas, aos anarquistas italianos e espanhóis, e por fim, ao que realmente interessa, a escrita.

Já nos anos 1940 escrevia para o Partido e em 1948, com 27 anos, fundou a Editora Rampa, seu primeiro projeto editorial, no qual foi parceiro de Edgard e Carlos Ortiz, figuras próximas a do mentor de cultura vasta e experiências literárias diversas. Jacó seguiu pelos caminhos da crítica e história da literatura, e escreveu Panorama da Literatura ídiche e traduziu Jóias do Conto ídiche e O Judeu da Babilônia, primeira narrativa de Isaac Bashevis a ser traduzida para a língua portuguesa.

Mesmo com tanto esforço, a editora parou no caminho e não conseguiu subir. Acabou fechando as portas, mas sua existência não foi sem propósito.

Com toda essa aventura, Jacó percorreu caminhos pelo meio editorial e conheceu diversas personalidades, desde jogadores da boca do gol até o meio de campo do mercado e, por fim, o menino que saia de salas de aula pela porta de trás, entrou na universidade pela porta da frente.

Em 1963, como professor convidado, iniciou sua carreira na Universidade de São Paulo, com um curso de Crítica Teatral. Em 1973, defendeu sua tese de doutorado, orientado por Antonio Candido, e em 1983 chegou à livre docência, tornando-se professor adjunto em 1987. Em 1990, foi consagrado titular da cadeira de estética teatral.

Ele não levava jeito para a coisa?

E eu que jamais imaginei que, algum dia, poderia ser professor… Afinal, eu nunca tive disciplina escolar, sempre detestei o aspecto formal do ensino… Mais forte, talvez, tenha sido minha convicção de que a capacidade intelectual, quando não é paixão, não é nada

Retirado de http://revrepublica.com.br/edicao/7/24

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s