Em defesa do impostor

Cyril Aslanov
Onde há poética ou poetas, o imperativo de transparência não pode ser mantido… a mentira é uma parte constitutiva da atividade poética. O tradutor seria manipulador e mentiroso por ser poeta. Se não fosse poeta, correria o risco de ser um tradutor ruim

Pretendo analisar o ato da tradução como uma difícil negociação entre uma transparência ideal e a tentação de enganar o leitor que não tem acesso ao texto original. Por meio de exemplos ministrados pela história da tradução desde a Bíblia dos Setenta (a Septuaginta) até as traduções modernas, vamos descrever uma “poética ou uma política do traduzir”, retomando a fórmula de Henri Meschonnic.

O tradutor de seu próprio texto não pode mantê-lo no mesmo estado de redação porque ele mesmo já mudou muito desde o momento em que escreveu a primeira versão da obra. O texto e o autor obedecem ao princípio de Heráclito, πάντα ῥεῖ (panta rei, “tudo flui”).

Aqueles casos de manipulação por parte do tradutor fazem perceber que a arte da tradução é uma “difícil liberdade”, para retomar a fórmula de Emmanuel Lévinas.  Difícil, porque é quase impossível respeitar o imperativo de transparência que se espera de um tradutor honesto: as restrições e as limitações que se fazem sentir quando se passa de uma língua para outra são fatores que distorcem o caminho e fazem aparecer a tradução como um discurso ontologicamente oblíquo. Liberdade, porque mesmo quando o tradutor fica no limite imposto pela deontologia, existem tantas opções, tantos caminhos (por tortos que sejam) na trajetória que leva de uma língua a outra que amiúde o problema do tradutor é precisamente a indecisão diante de opções demasiadamente variegadas. Até a tradução mais literal possível deixa uma margem de criatividade ao tradutor e, às vezes, o estimula, como as restrições formais fazem com o poeta que “dança em armadura”, segundo a fórmula de Ezra Pound.

Uma tradução deliberadamente errada pode funcionar como instrumento poderoso para deslegitimar um grupo, uma nação ou uma religião.

Talvez o Islã tivesse consciência dos perigos envolvidos na tradução quando proibiu que se traduzisse o Alcorão para outra língua, preferindo arabizar os neófitos da nova religião a desarabizar o texto do livro sagrado. Esse caso de interdição da tradução faz perceber a contrário que existem poucas traduções honestas — o tradutor está condenado a mentir, como o poeta exilado da cidade ideal de Platão.

… o verbo latino frustrare, derivado do substantivo fraus, “fraude”, refere-se ao ato de enganar e não ao sentido psicológico de frustrar… segundo Steiner, “90% das traduções desde Babel são inadequadas”, sendo as inadequações inerentes ao ato de tradução.

O assunto deste livro me foi inspirado pela contradição liminar que obriga o tradutor a mentir e a fingir como um poeta para ser um bom tradutor. Não se trata aqui de mais uma variação sobre o tema traduttori traditori, precisamente porque existem tradutores de boa vontade que procuram não trair nem enganar. Mas o resultado do trabalho desses tradutores fiéis e laboriosos é tão rebarbativo e incompleto que a manipulação — mais do que a traição propriamente dita — aparece como o único recurso para resgatar o texto traduzido do limbo da interlíngua onde caiu depois de o original ter sido decodificado.


Tradução? Versão? Transcriação? Ou manipulação?
É o que Cyril Aslanov, estudioso reconhecido internacionalmente e professor de Língua e Literatura Francesas da Universidade Hebraica de Jerusalém, discute neste volume da coleção Debates. Sua proposição é que a tradução constitui uma difícil negociação entre uma transparência ideal inatingível e a tentativa de enganar o leitor pela manipulação, vista como recurso para resgatar o original traduzido “do limbo da interlíngua onde caiu” após sua decodificação. O autor analisa o trabalho tradutório em obras famosas e influentes, da Bíblia até as contemporâneas, inclusive a tradução simultânea. Assim, o amplo quadro dos problemas e tendenciosidades que assaltam, consciente ou inconscientemente, o (in)fiel oficiante desse rito intelectual se compõe e se desdobra em Tradução Como Manipulação, certamente um livro de grande proveito e inestimável valor não só para aqueles que enfrentam o árduo desafio da tradução e seus perigos como para todo leitor interessado nos modernos problemas da interculturalidade.