Dramaturgos do Submundo no Grande Mundo

Lamentavelmente, só alguns dramaturgos do século XVI tiveram o privilégio de encenar e cumprir os assassinatos de seus inimigos em um palco de teatro. Mas quem é que nunca fantasiou com essa montagem na vida real?

Ao falar em dramaturgia elizabetana é natural que somente se pense em Shakespeare e em suas peças de maior sucesso, porém quase nada se registra sobre seus contemporâneos, dramaturgos ofuscados pelo sucesso de obras como Hamlet e Ricardo III. A fim de fazê-los justiça, Barbara Heliodora reuniu, em Dramaturgia Elizabetana, três peças-chave da escrita teatral que, pouco depois, culminariam na obra de Shakespeare. Thomas Kyd e Christopher Marlowe foram dois dos responsáveis pela popularidade do teatro inglês no século XVI, e recebem, pela primeira vez no Brasil, publicação na língua portuguesa.

Em seu grande hit, Tragédia Espanhola, Kyd  realiza o sonho velado de qualquer leitor habite essa terra: reunir e assassinar todos aqueles que lhe fizeram mal. A tragédia inaugurou um formato que possibilita a criação de personagens e técnicas mais complexas, que seriam incorporados ao texto de Hamlet, figurando personagens fantasmagóricos, espectros sedentos por vingança, peças dentro de peças, assassinatos e suicídios.

Ah, não, não há fim; o fim é morte e loucura! Eu nunca me sinto bem senão quando estou louco; então me parece que eu sou um sujeito impressionante, que faz maravilhas; mas a sanidade me ataca, e aí só há tormento e inferno.

No final, senhor, me faça encontrar um dos assassinos, e mesmo que fosse forte como Heitor, eu o estraçalhava assim, e o arrastava aí, para cima e para baixo.

(trecho retirado de Tragédia Espanhola)

 

Das escassas certezas que sobreviveram ao tempo, tem-se que Thomas Kyd tornou-se popular ao escrever sua Tragédia Espanhola, que daria nome a um novo gênero, as tragédias de vingança. Os detalhes acerca da vida dos dramaturgos são poucos, porém é sabido que Kyd e Marlowe foram colegas de quarto. Preso e torturado por documentos heréticos encontrados no cômodo compartilhado, Kyd foi solto após acusar o companheiro de ateísmo.

As peças reunidas por Barbara Heliodora não falham ao transmitir as formas de pensar dos dramaturgos, resgatando elementos do teatro medieval que, uma vez reapropriados, resultam em personagens humanizados, como é o caso do Fausto de Marlowe. Questionando valores vigentes, este Fausto compactua com um Mefistófeles em forma de frade franciscano, ridicularizando e contestando preceitos da época. O inconformismo e a vocação transformadora do homem iluminista são marcantes em A Trágica História do Dr. Fausto.

Spanish-tragedy

Barbara Heliodora

Crítica teatral, professora, ensaísta e tradutora, foi a maior autoridade no estudo de Shakespeare no Brasil. Bacharel em Língua e Literatura Inglesas pela Connecticut College, e doutora em Artes na Universidade de São Paulo, recebeu prêmios e atingiu posições de enorme respeito na área. Pela Academia Brasileira de Letras, recebeu a medalha João Ribeiro, por sua contribuição no âmbito cultural.

Barbara faleceu pouco antes da publicação de Dramaturgia Elizabetana, em abril de 2015, notícia que repercutiu de maneira estrondosa no cenário artístico. Atores e outras grandes personalidades como Fernanda Montenegro, Eva Wilma, Antônio Fagundes, Dan Stulbach e Eva Dóris Rosenthal tomaram as redes sociais com frases de pesar.

“Nunca é demais enfatizar a importância do legado de Barbara Heliodora, grande mestra, crítica teatral e tradutora, de todo o teatro de Shakespeare: incansável aos 90 anos, (…) apresenta a uma legião de alunos, atores e leitores o melhor do momento inaugural da dramaturgia elizabetana. A ela, para sempre, nossa gratidão.”

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